Se você frequenta academia ou grupos de treino no WhatsApp, já ouviu essa: "não tomo creatina porque tenho medo de ficar careca". A ideia é tão espalhada que muita gente com histórico de calvície na família simplesmente risca a creatina da lista de suplementos, mesmo sendo o composto mais estudado e mais barato da nutrição esportiva. O problema é que essa crença nasceu de um único estudo pequeno, de 2009, que nunca mediu um fio de cabelo — e um ensaio clínico publicado em abril de 2025 finalmente foi atrás da pergunta que ninguém tinha respondido: a creatina causa queda de cabelo de verdade, ou isso é lenda de vestiário?

O mito que virou dogma de academia

A lógica por trás do medo é simples de entender, e é por isso que ela pegou tão bem. A creatina pode aumentar a conversão de testosterona em di-hidrotestosterona (DHT), um andrógeno mais potente que é o principal vilão por trás da alopecia androgenética — a calvície de padrão masculino (e também feminino) determinada geneticamente. Se DHT sobe, e DHT encolhe folículos capilares em quem tem predisposição genética, a conta parece fechar. O problema é que "a conta parece fechar" não é a mesma coisa que "isso foi medido e confirmado".

De onde veio o medo: o estudo de 2009

A origem de quase toda discussão sobre creatina e cabelo é um único trabalho: van der Merwe e colaboradores, publicado em 2009 na Clinical Journal of Sport Medicine. Vinte jogadores de rugby universitários fizeram três semanas de suplementação (dose de ataque de 25 g/dia por sete dias, depois manutenção de 5 g/dia por mais 14 dias) e tiveram o sangue coletado antes e depois.

O número que assustou uma geração de academia

No estudo de 2009, o DHT subiu 56% após a fase de ataque e ficou 40% acima do valor basal depois da manutenção. A razão DHT/testosterona aumentou 36%. Nenhum fio de cabelo foi medido — o estudo parou no sangue.

Esse resultado é real e foi replicado em menor grau por outros trabalhos sobre creatina e perfil hormonal. O problema nunca foi o dado em si — foi o salto que a internet deu a partir dele.

Os problemas do estudo que assustou todo mundo

Primeiro, a amostra: 20 pessoas é pouco para qualquer conclusão robusta sobre um evento como queda de cabelo, que se desenvolve ao longo de meses ou anos, não de três semanas. Segundo, ninguém no estudo teve a densidade capilar avaliada — a suposição de que "DHT mais alto = mais queda de cabelo" foi extrapolada, não observada. Terceiro, um aumento de DHT dentro da faixa fisiológica normal não é automaticamente um problema: o corpo tem faixas de referência relativamente amplas, e nem todo homem com DHT mais alto desenvolve alopecia — a sensibilidade do folículo capilar ao andrógeno, que é geneticamente determinada, importa tanto quanto (ou mais que) a concentração do hormônio circulante.

Ainda assim, por 16 anos essa foi a única evidência disponível. Toda alegação de "creatina causa calvície" que você já leu descansava, em algum grau, sobre esses 20 jogadores de rugby sul-africanos.

O estudo de 2025: a primeira vez que alguém mediu o cabelo de verdade

Em abril de 2025, um grupo internacional de pesquisadores (Irã, Canadá e Estados Unidos) publicou na Journal of the International Society of Sports Nutrition o primeiro ensaio clínico randomizado desenhado especificamente para responder se creatina causa queda de cabelo. A diferença central em relação ao estudo de 2009: desta vez alguém realmente olhou para o couro cabeludo.

Quarenta e cinco homens treinados em musculação, de 18 a 40 anos, foram divididos aleatoriamente entre creatina monoidratada (5 g/dia, sem fase de ataque) ou placebo (maltodextrina) por 12 semanas, mantendo dieta e treino habituais. Antes e depois, os pesquisadores mediram testosterona total, testosterona livre e DHT no sangue — e, pela primeira vez, avaliaram a saúde folicular diretamente, com tricograma e o sistema FotoFinder, que quantifica densidade capilar, contagem de unidades foliculares e espessura acumulada dos fios.

Testosterona subiu, DHT não mudou: o que os números mostram

O resultado foi direto: não houve diferença entre os grupos em nenhum desfecho hormonal ou capilar. A testosterona total subiu ao longo do estudo tanto no grupo creatina quanto no grupo placebo — ou seja, o aumento não teve relação com o suplemento. O DHT não mudou de forma diferente entre os grupos, a razão DHT/testosterona também não, e nenhum dos parâmetros capilares (densidade, contagem de folículos, espessura) diferiu entre quem tomou creatina e quem tomou pó de amido.

Em outras palavras: no único estudo até hoje que mediu o desfecho que realmente importa — o cabelo — a creatina não se comportou diferente do placebo. Os próprios autores descrevem o achado como a primeira evidência direta contra a hipótese de que a creatina contribui para a queda de cabelo.

Por que tanta gente "sente" que perdeu cabelo com creatina

Vale reconhecer o motivo pelo qual a crença sobrevive mesmo diante de evidência fraca a favor dela: a alopecia androgenética costuma começar exatamente na faixa etária (final da adolescência até os 30 e poucos anos) em que homens começam a treinar sério e a suplementar com creatina. A coincidência de calendário — "comecei a tomar creatina e uns meses depois percebi entradas" — é fácil de confundir com causa e efeito, principalmente quando já existe um estudo de 2009 circulando como "prova científica" para dar sustentação à suspeita. É o clássico caso de correlação temporal sendo lida como causalidade, ainda mais fácil de acontecer quando a explicação mecanística (DHT) já está pronta e parece plausível.

Genética manda mais que suplemento

Isso não significa que DHT seja irrelevante para calvície — é, sem dúvida, o principal hormônio envolvido no processo, e é por isso que fármacos que bloqueiam a conversão de testosterona em DHT (como a finasterida) funcionam para tratar alopecia androgenética. O ponto é outro: quem vai ou não perder cabelo é determinado, majoritariamente, por sensibilidade genética do folículo ao andrógeno — não pela concentração de DHT em si, que costuma variar dentro de faixas normais mesmo com suplementação. Se a genética já "sentenciou" a calvície, ela provavelmente vai acontecer com ou sem creatina no armário. E se não sentenciou, a evidência direta disponível hoje sugere que 5 g/dia de creatina por 12 semanas não muda esse destino.

Isso está alinhado com o que a posição oficial da International Society of Sports Nutrition já apontava desde 2017: doses de creatina de até 30 g/dia por até cinco anos são seguras e bem toleradas em populações saudáveis, sem sinais de dano hormonal relevante — o que reforça que a hipótese "creatina = calvície" nunca teve, de fato, respaldo forte por trás.

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Perguntas frequentes

Creatina realmente aumenta o DHT?

Um estudo pequeno de 2009 encontrou aumento de DHT após três semanas de suplementação em jogadores de rugby, mas o ensaio de 2025, mais robusto e com 12 semanas de acompanhamento, não encontrou diferença de DHT entre creatina e placebo. Os dados hoje são conflitantes, e o estudo mais recente e mais bem desenhado pesa contra a hipótese.

Quem tem calvície na família deve evitar creatina?

Não há evidência direta de que deva. A alopecia androgenética é determinada principalmente pela sensibilidade genética do folículo capilar ao DHT, não pela quantidade de creatina consumida. Quem tem forte histórico familiar de calvície vai, na prática, seguir esse caminho independente de suplementação — mas isso é uma decisão pessoal de cada um, e vale conversar com um dermatologista se a preocupação for grande.

O estudo de 2025 é confiável?

É um ensaio clínico randomizado, duplo-cego, controlado por placebo, publicado em periódico revisado por pares (Journal of the International Society of Sports Nutrition) — o desenho mais robusto disponível para responder esse tipo de pergunta. A amostra de 38 participantes que completaram o estudo ainda é modesta, e replicações maiores são bem-vindas, mas é hoje a melhor evidência direta que existe sobre o tema.

Existe uma dose de creatina mais segura para quem tem medo de queda de cabelo?

Não há evidência de que doses menores sejam "mais seguras" nesse quesito específico, porque o próprio estudo de 2025 não encontrou efeito da dose padrão (5 g/dia) sobre o cabelo. Reduzir a dose abaixo do que é eficaz para ganho de força e massa não tem lastro científico como estratégia de proteção capilar.

Finasterida e creatina podem ser usados juntos?

Não há contraindicação conhecida. A finasterida atua bloqueando a enzima 5-alfa-redutase, reduzindo a conversão de testosterona em DHT, e é usada justamente para tratar alopecia androgenética. Nada nos dados atuais sobre creatina sugere interferência nesse mecanismo, mas decisões sobre uso de medicamentos devem sempre passar por um médico.

Quanto tempo o estudo de 2025 acompanhou os participantes?

Doze semanas, com coleta de sangue e avaliação capilar no início e ao final do período, comparando 5 g/dia de creatina monoidratada contra placebo de maltodextrina em homens treinados de 18 a 40 anos.