A febre roxa que virou símbolo olímpico

Nas Olimpíadas do Rio, em 2016, o nadador Michael Phelps apareceu nos pódios com círculos roxos espalhados pelos ombros e pelas costas. As marcas eram de ventosaterapia, uma técnica milenar que passou a ser tratada como arma secreta de recuperação por atletas de elite de dezenas de modalidades — do atletismo ao MMA. Quase dez anos depois, a ventosaterapia continua presente em academias, clínicas de fisioterapia esportiva e centros de treinamento de alto rendimento pelo Brasil todo, vendida como forma de acelerar a recuperação muscular entre treinos pesados.

O problema é que, quando se olha para os estudos mais recentes e mais bem controlados sobre o tema, a resposta não é o consenso tranquilo que a popularidade da técnica sugere. Em 2025, dois estudos publicados a poucos meses de distância chegaram a conclusões praticamente opostas sobre se a ventosaterapia realmente acelera a recuperação de atletas — e entender por que isso aconteceu diz mais sobre como avaliar evidência esportiva do que sobre a ventosa em si.

Como a ventosaterapia teoricamente age no corpo

A técnica usa copos de vidro, plástico ou silicone para criar uma sucção que descola a pele e o tecido subcutâneo do músculo abaixo, gerando uma pressão negativa localizada. A hipótese fisiológica por trás do uso esportivo é que essa sucção aumentaria o fluxo sanguíneo local, ajudaria a "drenar" metabólitos associados à fadiga muscular e reduziria a percepção de dor por mecanismos neuromoduladores parecidos com os de outras terapias manuais.

Existem duas variantes principais: a ventosa seca, que não rompe a pele, e a ventosa "úmida" ou com sangria, que envolve uma pequena escarificação da pele antes da sucção — usada sobretudo em contextos de medicina tradicional chinesa para dores crônicas, não em recuperação esportiva pós-treino. No esporte, a variante seca é a norma, geralmente aplicada por curtos períodos (5 a 10 minutos) sobre o músculo que sofreu maior sobrecarga na sessão de treino ou competição.

O estudo de 2025 que dá crédito à ventosa

O primeiro estudo, publicado na Frontiers in Sports and Active Living, testou a ventosaterapia em pressão negativa (NPCT) em 55 homens saudáveis que passaram por um protocolo de alta intensidade nos quadríceps — avanços, agachamentos e saltos com agachamento — desenhado para induzir dor muscular de início tardio (DOMS). Os participantes foram divididos em um grupo controle e quatro grupos com diferentes níveis de sucção (-25, -35, -45 e -55 kPa), tratados por 10 minutos logo após o exercício.

Os resultados, avaliados 24 horas depois, favoreceram claramente a ventosa nas pressões mais altas: o grupo de -55 kPa registrou uma dor média de 1,57 pontos na escala visual analógica, contra 6,14 pontos no grupo controle. Esse mesmo grupo também teve melhor desempenho em testes de sprint de 30 metros e salto horizontal, maior amplitude de movimento no joelho e níveis de creatina quinase (CK) e LDH — marcadores de dano muscular — mais próximos do normal, além de queda nos marcadores inflamatórios IL-6 e TNF-α.

O estudo de 2025 que zera o efeito

Poucos meses depois, um ensaio clínico randomizado publicado no Journal of Bodywork and Movement Therapies testou a mesma ideia em condições mais parecidas com o uso real da técnica: 81 corredores recreacionais receberam 5 minutos de ventosaterapia nos quadríceps após uma corrida, enquanto o grupo controle recebeu uma mobilização articular simulada (sham) no quadril e no joelho — um procedimento desenhado para parecer uma intervenção real, sem sê-lo.

Com acompanhamento de 72 horas, os pesquisadores não encontraram diferença estatisticamente significativa entre os grupos em nenhum dos desfechos avaliados: dor muscular, intensidade da fadiga, percepção de recuperação ou altura do salto vertical. Em outras palavras, para quem já treina e usa a ventosa como parte da rotina de corrida, o estudo mais parecido com a vida real não achou vantagem nenhuma sobre um procedimento placebo.

Dois estudos, dois resultados opostos

Em 2025, um estudo controlado em laboratório (55 homens, DOMS induzida) encontrou queda de dor de 6,14 para 1,57 pontos com ventosa em alta pressão. No mesmo ano, um ensaio clínico com 81 corredores reais, comparando ventosa a um procedimento placebo, não encontrou nenhuma diferença em dor, fadiga ou salto vertical.

O que dizem as revisões sistemáticas mais amplas

Os dois estudos de 2025 não são um caso isolado de divergência — eles refletem um padrão que aparece também nas revisões sistemáticas que juntam dezenas de ensaios clínicos sobre ventosaterapia, a maioria feita fora do contexto esportivo, em pacientes com dor lombar ou dor musculoesquelética crônica.

Uma meta-análise de 2024 publicada na Complementary Therapies in Medicine, reunindo 11 ensaios e 921 pacientes com dor lombar, encontrou melhora significativa da dor entre 2 e 8 semanas de tratamento, mas nenhum efeito sustentado após um mês ou entre três e seis meses — e apontou heterogeneidade alta entre os estudos, com a ventosa "úmida" superando a seca. Já uma meta-análise de 2025 no BMJ Open, sobre dor musculoesquelética crônica em geral, encontrou redução real na intensidade da dor, mas nenhuma melhora em incapacidade funcional ou saúde mental — com heterogeneidade entre estudos beirando 94%, o tipo de número que indica que os resultados variam tanto de estudo para estudo que a média geral esconde mais do que revela.

Por que a ciência diverge tanto sobre a mesma técnica

Um detalhe de desenho experimental ajuda a explicar a diferença entre os dois estudos de 2025. O estudo que encontrou benefício comparou a ventosa contra nenhuma intervenção — o grupo controle simplesmente não recebeu tratamento algum. Isso deixa margem para que parte do efeito observado seja resultado da expectativa do participante, do contato humano da aplicação ou do simples fato de ter recebido algum cuidado após o esforço, não da sucção em si.

Já o estudo que não encontrou efeito comparou a ventosa contra um procedimento placebo ativo — algo que parece tratamento, mas não deveria ter efeito fisiológico específico. Esse tipo de desenho é mais rigoroso justamente porque neutraliza esse viés de expectativa. Quando o "concorrente" da ventosa é um placebo bem construído, e não a ausência total de cuidado, a vantagem da técnica desaparece. Esse padrão — efeito que encolhe ou some quando o grupo comparação é um placebo credível — é comum em terapias manuais como agulhamento seco, liberação miofascial e até parte da eletroterapia, e é um dos sinais clássicos de que um benefício percebido é, ao menos em parte, contextual.

Vale a pena usar ventosaterapia depois do treino?

Isso não significa que a ventosaterapia seja uma fraude ou que atletas que sentem alívio estejam "imaginando coisas". Efeitos ligados a expectativa, contexto e ritual de recuperação são reais na experiência subjetiva de quem treina, mesmo quando não alteram marcadores objetivos de dano muscular ou desempenho. O problema é a lacuna entre o que a técnica promete — recuperação muscular acelerada, redução objetiva de inflamação, ganho de desempenho — e o que a evidência mais rigorosa sustenta até aqui, que é bem mais modesto e inconsistente.

Para quem gosta da sensação e não tem contraindicações (lesões de pele, uso de anticoagulantes, feridas abertas na região tratada), não há motivo forte para abandonar a prática por puro ceticismo. Mas também não há base científica sólida para tratá-la como parte essencial de um protocolo de recuperação, nem para escolher ventosaterapia em vez de intervenções com evidência mais consistente, como sono adequado, ingestão de proteína e progressão de carga de treino bem planejada.

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Perguntas frequentes

Ventosaterapia dói ou deixa marca?

A aplicação costuma ser indolor ou levemente desconfortável, mas quase sempre deixa marcas roxas ou avermelhadas na pele, que podem durar de alguns dias a duas semanas. Essas marcas são hematomas causados pela sucção, não um sinal de que o tratamento "funcionou" ou de que havia mais toxinas ou inflamação naquela região.

A ventosaterapia reduz a dor muscular tardia (DOMS)?

Depende do estudo. Um ensaio de 2025 com protocolo de laboratório e grupo controle sem intervenção encontrou redução expressiva da dor. Um ensaio de 2025 com corredores reais e grupo placebo ativo não encontrou diferença nenhuma. A evidência hoje é insuficiente para afirmar com confiança que a ventosa reduz DOMS além do efeito de expectativa.

Existe diferença entre ventosa seca e ventosa com sangria?

Sim. A ventosa seca não rompe a pele e é a forma usada em contexto esportivo. A ventosa "úmida", com pequena escarificação da pele, é mais associada a estudos de dor crônica e medicina tradicional chinesa, e algumas meta-análises sugerem que ela teria efeito ligeiramente maior sobre a dor — mas com risco maior de infecção e marcas mais duradouras.

Atletas de elite usam a técnica porque ela funciona ou por efeito placebo?

Provavelmente uma mistura das duas coisas, mais um componente de ritual e rotina. Popularidade entre atletas de alto rendimento não é evidência de eficácia fisiológica — muitas práticas se espalham por imitação social depois que um atleta vitorioso as adota publicamente, independentemente do que os estudos controlados mostram.

Ventosaterapia pode substituir fisioterapia ou atrapalhar a recuperação?

Não deve substituir avaliação e tratamento fisioterapêutico de lesões. Não há evidência de que a técnica, usada com bom senso e sem contraindicações, atrapalhe a recuperação — mas também não há motivo para esperar que ela acelere a volta ao treino de forma consistente.

Vale a pena eu experimentar ventosaterapia depois do treino?

Se você gosta da sensação e não tem contraindicações, experimentar não traz risco relevante. O ponto central é calibrar a expectativa: trate como um extra opcional e possivelmente ligado a efeito placebo, não como uma ferramenta com efeito comprovado sobre dano muscular, inflamação ou desempenho.